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A inter-relação entre
a Periodontia e a Ortodontia
O TRABALHO MULTIDISCIPLINAR CADA VEZ MAIS SE FAZ fAZ PRESENTE NOS
TRATAMENTOS ORTODÔNTICOS.
EM SE TRATANDO DE PERIODONTIA,
A PARCERIA É FUNDAMENTAL PARA O SUCESSO DOS PROCEDIMENTOS
DA ORTODONTIA
Por Cecilia Felippe Nery
Nos tratamentos ortodônticos os pacientes podem
apresentar alterações periodontais, na sua maioria de grau
leve e reversíveis com uma simples profi laxia. Contudo, há
casos em que a atenção deve ser mais rigorosa, como o da
doença periodontal, de forma que um trabalho em conjunto
entre ortodontista e periodontista deva ser iniciado e mantido
ao longo do tratamento. Assim, é cada vez mais frequente
a inter-relação e o estudo entre essas duas especialidades da
Odontologia.
Para que essa parceria seja efetiva e traga resultados
satisfatórios é fundamental que o profi ssional realize um bom
exame clínico e uma boa anamnese no paciente que será submetido
ao tratamento ortodôntico/periodontal. “Seja qual for
o procedimento a ser submetido, o paciente é a fonte principal
dos dados necessários para fechar o diagnóstico correto”,
afirma Gladys Cristina Dominguez, professora associada do
Departamento de Ortodontia da Fousp.
“A anamnese deve ser
conduzida de forma cuidadosa e sensível com a fi nalidade de
obter a maior parte de informações do paciente sem que ele
se sinta, de alguma forma, constrangido em falar de fatos pessoais e da própria saúde. Uma boa anamnese representa 50%
de um bom diagnóstico”, completa Camillo Morea, mestre em
Periodontia pela Universidade de Berna (Suíça), doutor em Periodontia
e pós-doutor em Ortodontia pela Fousp.
De um modo geral, os tratamentos ortodônticos têm
se tornado cada vez mais acessíveis à população.
“Sequelas
das doenças periodontais, como perda de inserção, migração
patológica dos dentes e ausência de elementos dentários podem
resultar em más-oclusões de difícil correção. Além disso,
perfi s gengivais pouco espessos e movimentações ortodônticas
inadvertidas podem estar relacionados ao desenvolvimento
de retrações gengivais. Desta forma, uma detalhada
avaliação clínica periodontal antes da abordagem ortodôntica é essencial”, ratifi ca Renato de Vasconcelos Alves, mestre
e doutor em Periodontia pela Faculdade de Odontologia de
Piracicaba (Unicamp), professor adjunto da Disciplina de Periodontia
da Faculdade de Odontologia de Pernambuco (UPE)
e coordenador dos cursos de Especialização em Periodontia – ABO-Pernambuco (seccionais Recife e Caruaru).
Gladys Cristina Dominguez
Conforme João Sarmento Pereira Neto, especialista em Radiologia Oral pela UFRJ, mestre, doutor e professor da área
de Ortodontia FOP-Unicamp, a anamnese e o exame clínico
possibilitam detectar os sinais de alarme para fundamentar o
diagnóstico e a elaboração da estratégia de tratamento mais
adequado para o paciente, como o estado geral de saúde, hábitos
bucais deletérios, relação idade e sexo, fatores hormonais
e processo de envelhecimento, perdas dentárias, nível periodontal
ou de suporte ósseo e uso de medicamentos de uso
contínuo ou de drogas e de cigarro.
“Somente após um exame
cuidadoso, associado aos demais elementos de diagnóstico
será possível determinar o risco periodontal e o estabelecimento
de um plano de tratamento ortodôntico individualizado,
o que em sua totalidade é multidisciplinar”, acrescenta.
Radiologia Oral pela UFRJ, mestre, doutor e professor da área
de Ortodontia FOP-Unicamp, a anamnese e o exame clínico
possibilitam detectar os sinais de alarme para fundamentar o
diagnóstico e a elaboração da estratégia de tratamento mais
adequado para o paciente, como o estado geral de saúde, hábitos
bucais deletérios, relação idade e sexo, fatores hormonais
e processo de envelhecimento, perdas dentárias, nível periodontal
ou de suporte ósseo e uso de medicamentos de uso
contínuo ou de drogas e de cigarro. “Somente após um exame
cuidadoso, associado aos demais elementos de diagnóstico
será possível determinar o risco periodontal e o estabelecimento
de um plano de tratamento ortodôntico individualizado,
o que em sua totalidade é multidisciplinar”, acrescenta.
Partindo-se da premissa de que a terapia ortodôntica
só será bem-sucedida se a saúde periodontal e adequados padrões
de higiene bucal forem mantidos durante o transcorrer
da correção, Flavio Vellini Ferreira, diretor do Instituto Vellini,
professor associado da USP e coordenador do Programa de
Mestrado em Ortodontia da Unicid, confi rma que uma pertinente
anamnese e um cuidadoso exame clínico se reveste
da mais alta importância, constituindo-se em uma minuciosa
investigação para fi ns de diagnóstico, podendo ser realizado
visualmente por palpação, por sondagem, com auxílio de radiografi
as, análises laboratoriais, entre outros.
“Na anamnese, por meio de perguntas orientadas, procura-
se obter informações sobre a história pregressa do paciente
no tocante ao início dos problemas clínicos apresentados,
bem como de suas condições sistêmicas. Ademais, fornece
subsídios para um detalhado estudo dos fatores de risco para o
desenvolvimento e a progressão da doença periodontal. Entre
esses fatores que afetam o sistema imunológico do hospedeiro
ou da biota microbiana pode-se enumerar a diabetes melitus
insulino dependente mal controlada e o hábito de fumar, a neutropenia,
a artrite reumatoide, entre outros”, ressalta Vellini.
De acordo com Vinicius Augusto Tramontina, mestre
e doutor em Clínica Odontológica / área de Periodontia pela
FOP-Unicamp e professor titular da Área de Periodontia (graduação
e pós-
graduação) da PUC-PR, a anamnese, incluindo histórias médica e odontológica do paciente, tratamentos
periodontais e/ou ortodônticos prévios e o exame clínico
criterioso, avaliando-se a condição periodontal dos dentes,
principalmente a investigação de doença periodontal presente,
suporte periodontal remanescente, condição e características
do tecido gengival como posição, espessura e faixa de
mucosa queratinizada, são determinantes do diagnóstico e
planejamento dos casos em que seja necessário o tratamento
ortodôntico.
“A falha do diagnóstico da condição periodontal
refl ete diretamente no insucesso do tratamento ortodôntico,
principalmente em pacientes adultos”, garante.
RECESSÃO GENGIVAL
Durante o tratamento ortodôntico diversos cuidados
devem ser seguidos, sobretudo para prevenir a recessão gengival,
caracterizada pela sua migração em direção à região
apical do dente e apresenta etiologia multifatorial, podendo
estar relacionada a processo infl amatório, geralmente devido
ao acúmulo de placa bacteriana, traumatismos – ocasionados
por técnica de escovação incorreta – movimentos ortodônticos
indevidos, traumas oclusais, deiscências ósseas –, principalmente
em dentes inclinados para vestibular – envelhecimento
do indivíduo, inserções anormais de freios e bridas,
bem como um tecido gengival delgado em sua região inserida.
“Assim sendo, o ortodontista necessita estar ciente de que a
movimentação ortodôntica de uma ou mais peças dentais em
direção à fi na camada cortical vestibular, geralmente conduz
a deiscências ósseas que podem resultar em recessões, caso a
gengiva apresente-se não ceratinizada”, esclarece Vellini.
Após determinar a condição periodontal do paciente,
eliminando as áreas com presença de infl amação, deve-se determinar
as áreas com uma faixa estreita e/ou pouca espessura
de mucosa queratinizada, que são áreas predispostas à recessão.
“Detectadas essas áreas, o tratamento ortodôntico deverá
ser conduzido de maneira a não provocar movimentos derivados
de forças muito intensas, sobretudo em direção a áreas de
processos alveolares delgados que poderiam ser reabsorvidos,
predispondo o aparecimento de recessão gengival. Associado
a essas observações, um cuidado especial precisa ser observado
com relação ao controle mecânico de placa, que deve
ser efi ciente, porém sem trauma de escovação, sendo esse
considerado um fator importantíssimo dentro da etiologia da
recessão gengival. Em algumas situações clínicas, a Periodontia
poderia também contribuir com técnicas cirúrgicas para
preservar ou aumentar a faixa de gengiva (cirurgias plásticas
periodontais) em regiões de risco para o aparecimento de recessões”,
informa Tramontina.
Camillo Morea
É fato que o tratamento ortodôntico tem, algumas vezes,
como consequência, o aparecimento de recessões gengivais,
como explica Cristina. “Algumas, especialmente aquelas
da área ântero-inferior, podem estar relacionadas à espessura
reduzida da tábua óssea vestibular ou à presença de fenestrações
já existentes antes do tratamento.
A presença de freios
com inserção alta também pode levar a ter uma recessão gengival.
Outras vezes, a recessão é o resultado de uma colocação
inapropriada dos dentes em relação às bases ósseas. Uma boa
avaliação das causas predisponentes, antes de começar o tratamento,
pode ajudar a reduzir a incidência desta complicação
e uma intervenção precoce em relação aos freios também
deve ser considerada.
Achamos fundamental informar ao paciente,
antes de começar o tratamento ortodôntico, quando
ele apresentar algumas características predisponentes, que a
recessão pode se apresentar durante ou após a movimentação
ortodôntica e, dependendo do tipo, ela tem tratamento
e, nos casos mais favoráveis, pode chegar a 100% de recuperação”,
assegura.
Por outro lado, Alves faz questão de ressaltar que as
evidências cientifi cas disponíveis atualmente permitem afi rmar
que a maioria das formas de terapia ortodôntica não tem ação
prejudicial sobre os tecidos de proteção do dente.
“No entanto,
o desenvolvimento de retração gengival, após movimentos de
vestibularização, por exemplo, pode acontecer em alguns pacientes,
desde que este movimento esteja associado a um osso
alveolar pouco espesso ou deiscências ósseas, ou ainda uma
gengiva pouco espessa. Sendo assim, a avaliação da espessura
gengival em pacientes que serão submetidos a tratamento ortodônticoé importante na prevenção das retrações gengivais.
Deve-se considerar também a orientação para uma técnica de
escovação efi caz e atraumática, também como forma de prevenir
o aparecimento de retrações”, complementa.
Para Sarmento, a prevenção da recessão gengival está
relacionada a fatores como idade do paciente e sexo. “Não devemos
nos esquecer do processo de envelhecimento natural
e de todas as interações a que o ser humano passa; eliminação
de hábitos que comprometam a saúde bucal e geral do paciente,
como o uso do fumo e de outras drogas; prática de hábitos
de higiene bucal adequada; instalação de um aparelho
ortodôntico ou de dispositivos que sejam efi cientes e simples
que favoreçam a higienização. Deve ser feita uma avaliação
do paciente e um controle simultâneo e periódico com outros
profi ssionais da área odontológica”, aconselha.
EXTRUSÃO FORÇADA
Existem diferentes técnicas para os casos de extrusão
dental forçada, visando o restabelecimento do espaço biológico
em relação à função e a estética periodontal. Todas são muito
efetivas em restabelecer as distâncias biológicas e normalmente
também a estética. De acordo com Alves, a escolha da técnica
deve ser baseada nas preferências clínicas do profi ssional e
nas condições específi cas do caso (preservação da coroa, estado
endodôntico, presença de pino intracanal etc.).
“Em situações
de comprometimento do espaço biológico, um aspecto a ser
considerado é a realização ou não da fi brotomia, que tem por
objetivo prevenir o movimento simultâneo do dente e do tecido ósseo em direção coronal; este efeito combinado pode não
ser desejável, uma vez que sugere a realização de cirurgia para
recontorno ósseo após a movimentação”, afirma.
Conforme Vellini, os princípios mecânicos que regem
a extrusão forçada de dentes, fundamenta-se em bases biológicas
segundo as quais o osso e a gengiva acompanham a
movimentação em todas as direções do espaço, desde que o
periodonto de proteção e de inserção estejam sadios. “Baseado
no princípio de que o osso reage satisfatoriamente às forças
de tensão apondo novas camadas deste tecido às já existentes, é de se entender que pela extrusão forçada as paredes
do alvéolo, nas proximidades da região apical, deslocam-se
juntamente com o dente, desde que a força ortodôntica empregada
para tal seja fi siológica – baixa intensidade e lento
tracionamento”, declara.
“A técnica ortodôntica utilizada em
tal tipo de tratamento requer, pois, adequado cuidado para
a manutenção da higidez periodontal durante todo o transcurso
da correção, com movimentações suaves dos dentes ou
raízes residuais, levando-se sempre em conta a quantidade de
inserção do dente no osso”, acrescenta.
Para Sarmento, não existe extrusão forçada e sim extrusão
programada, já que o profi ssional não força o dente,
mas planeja com base na análise cuidadosa, verifi cando a
necessidade, a quantidade de movimento em milímetros; tamanho
da raiz remanescente, condição endodôntica, dentes
vizinhos e antagônicos, se hígidos ou restaurados e qual tipo
de material a que este foi submetido, entre outros.
“Há todo
um planejamento e, por esta razão, o termo mais adequado é extrusão programada, pois há um direcionamento determinando
os objetivos se a extrusão será para a colocação de uma
prótese, para uma restauração cervical ou também como preparo
para um implante. A técnica adotada dependerá das condições
locais e do diagnóstico do caso, devendo ser individualizada
para cada paciente e serem consideradas, basicamente,
a ancoragem, as condições dos dentes vizinhos e antagônicos,
necessidade e objetivos do tracionamento e, em raros casos,
podendo até mesmo ser indicado um aparelho removível,
mas na maioria são utilizados dispositivos fi xos”, atesta.
Já Tramontina explica que a extrusão dental forçada é
uma técnica ortodôntica extremamente importante dentro das
opções terapêuticas para a resolução das áreas com invasão do
espaço biológico. “Primeiramente por proporcionar um resultado
mais favorável em dentes da chamada zona estética, sobretudo
naquelas situações em que há invasão do espaço biológico
em apenas um elemento, no qual as técnicas cirúrgicas que
envolvam retalho com osteotomia e osteoplastia provocariam
uma defi ciência estética permanente. Outra situação a ser considerada é a manutenção do contorno ósseo em arco côncavo
regular, no caso da opção pela técnica cirúrgica.
Portanto, a extrusão
dental forçada deve ser considerada como uma técnica
mais favorável com relação à estética, pela preservação e, em
alguns casos, ganho das estruturas periodontais de suporte e
proteção. Como desvantagem, haveria um maior tempo para
se atingir o objetivo do restabelecimento das distâncias biológicas,
maior custo e a limitação da técnica em dentes multirradiculares,
devido às áreas de bifurcação”, justifica.
Vinicius Augusto Tramontina
De acordo com Morea, a recuperação do espaço biológico
perdido é um assunto muito importante, em que a colaboração
entre o periodontista e o ortodontista é importante para
a obtenção de um resultado estético e funcional ideal. “O ponto
de partida é a saúde periodontal do elemento a ser extruído.
Uma vez livre da infl amação, temos de nos concentrar no nível
da margem gengival. Se a margem gengival estiver no nível
correto, precisamos lançar mão da extrusão rápida com a fi brotomia
da inserção conjuntiva e a raspagem e o alisamento da raiz.
Flavio Vellini Ferreira
No caso em que a margem gengival precise ser mudada,
devemos recorrer à extrusão ortodôntica lenta. Ao fi nal da extrusão
lenta é quase sempre preciso fazer um pequeno retalho
para corrigir a arquitetura óssea invertida que se obtém com
esse procedimento.
Devem ser feitas também considerações
relativas à prótese a ser colocada em seguida, pois os dentes
extruídos quase sempre apresentam um diâmetro mesiodistal
reduzido em relação ao dente hígido e, portanto, devem ser
reabilitados com cuidado para evitar (quando é possível) a presença
de triângulos negros nas ameias”, orienta.
SUPORTE ÓSSEO
Os casos de pacientes que perderam suporte ósseo
devido à doença periodontal demandam cuidados especiais
com relação à indicação de tratamento ortodôntico.
“Esses
pacientes deveriam ser tratados periodontalmente até a completa
eliminação da doença, ou seja, ausência de inflamação
nas áreas de bolsa onde houve a perda de suporte”, explica
Tramontina. “Após essa etapa, o paciente deveria estar em
concordância com um programa de terapia periodontal de
suporte com visitas periódicas ao periodontista para avaliar
o controle da doença.
Após essa fase, com o paciente controlado,
devemos considerar o mesmo como paciente de risco
para o tratamento ortodôntico, não sendo isso uma contraindicação
formal para o tratamento. Devemos-nos lembrar de
comunicar ao ortodontista para que o mesmo execute a mecânica
ortodôntica, respeitando essa redução do suporte periodontal.
Durante o tratamento ortodôntico, devido à presença
dos acessórios ortodônticos e do arco, existe uma difi culdade,
uma limitação para o controle de placa efi ciente. Por isso, os
pacientes periodontais precisam receber orientação de visitas
para controle de placa mais frequentes, devendo essas visitas
serem determinadas conforme o risco e as limitações de cada
paciente”, afi rma Tramontina.
João Sarmento Pereira Neto
Para Vellini, o tratamento ortodôntico em pacientes
com perda de aproximadamente 50% de suporte osseoalveolar, devido a processos patológicos diversos, pode ser perfeitamente
realizado desde que sejam boas as condições de saúde
periodontal. Assim sendo, durante o transcurso da correção,
rigorosas medidas de higiene bucal devem ser adotadas pelo
paciente, com o intuito de ser evitada toda e qualquer inflamação gengival.
O tecido ósseo, mesmo reduzido, reage
bem às forças ortodônticas, podendo até, em determinadas
circunstâncias, melhorar a qualidade do suporte osseoalveolar. “Todavia, é importante salientarmos que os dentes com
menos suporte ósseo apresentam maiores probabilidades de
reabsorção radicular, caso os níveis de força aplicados para
seu deslocamento não forem baixos, ou seja, bem menores do
que aqueles empregados em dentes com periodonto sadio.
Portanto, um fator de grande relevância na dinâmica do movimento
dental nestes casos é a quantidade de força aplicada
ao dente por razões puramente biomecânicas”, destaca.
Já Sarmento ressalta que esses pacientes podem ser
submetidos a tratamento ortodôntico desde que não sejam
fumantes ou que não possuam alguma doença degenerativa
que afetem diretamente as estruturas de suporte.
“Porém,
tais pacientes devem ser submetidos a uma avaliação
e controle multidisciplinar simultaneamente ao tratamento
ortodôntico. Neste caso, a base do tratamento consiste no
uso de forças leves e contínuas, com maior intervalo entre
as manutenções, devendo ter objetivos bem defi nidos e, em
sua maioria, setorizados”.
Da mesma forma, Alves considera que o tratamento
ortodôntico em pacientes adultos com periodonto reduzido
ou comprometido não é contraindicado, desde que o quadro
infeccioso periodontal esteja controlado e o paciente seja treinado
a realizar procedimentos de higiene bucal efetivos.
“Contudo,
um maior risco de efeitos adversos sobre o periodonto
pode ser esperado quando os movimentos ortodônticos são
executados de maneira descontrolada, na presença de infl amação
periodontal e higiene bucal pouco efi caz”, adverte.
A relação custo/benefício do tratamento ortodôntico
nesses pacientes deve ser considerada, segundo Cristina. “Em linha teórica, o paciente pode ser tratado sem o receio que perca mais inserção devido ao tratamento ortodôntico.
Os cuidados se referem substancialmente à obtenção da saúde
periodontal antes do tratamento ortodôntico e à sua manutenção
durante o tempo todo em que se tem aparelho. O
ortodontista deve usar forças e precauções adequadas à movimentação
de dentes com suporte periodontal fortemente
reduzido (arcos e forças muito leves)”, frisa.
PREVENÇÃO
Convém ressaltar a importância dos pacientes e dos
profissionais seguirem algumas medidas que visem o não
aparecimento das doenças periodontais durante e após o tratamento
ortodôntico/periodontal. De acordo com Sarmento,
a Ortodontia tem o objetivo básico de proporcionar qualidade
de vida ao paciente, como estética, função mastigatória
adequada, entre outros benefícios, mas para que isso possa
ser atingido, o paciente deve ter hábitos saudáveis de saúde
geral e bucal, alimentação balanceada e natural, evitar o uso
de cigarros e de drogas e também de automedicação.
“Este
conjunto de interações, além de proporcionar uma vida saudável,
possibilitará resultados mais estáveis, juntamente com
um aparelho adequado para o paciente, o qual deve ser indicado
conforme a idade, o tipo de má-oclusão ou do problema
que este apresenta”, declara.
Dessa forma, todo e qualquer tratamento ortodôntico
só poderá ser realizado em pacientes com perfeitas condições
de saúde em seu aparelho de sustentação dos dentes (periodonto),
ou seja, sem placa bacteriana e infl amação gengival.
“Este fato”, segundo Vellini, “exige maior ênfase nas instruções
sobre higiene bucal, precisão na montagem e na colocação
de aparelho corretivo, que não deve apresentar pontos de irritação
e periódicas revisões sobre o estado geral do sistema
estomatognático do paciente. Como uma das fi nalidades do
tratamento ortodôntico é o estabelecimento de uma oclusão
equilibrada, sem traumas e em harmonia com as linhas
faciais, o posicionamento de cada dente no seu todo, coroa e
raiz, deve seguir uma direção axial biologicamente favorável às estruturas de suporte, para que as mesmas se mantenham
sadias”, especifica.
Para Cristina, o aparelho ortodôntico fi xo é um retentor
de placa e, portanto, o paciente deve ser alertado sobre
o risco de doença periodontal se ele desrespeitar os cuidados
para com a higiene bucal e, ainda, ser instruído a limpar
dentes e aparelho usando os instrumentos adequados. “A
cobrança da higiene bucal deve ser também constante para
motivar o paciente a manter um nível que não faça aparecer
problemas. Nos adolescentes e jovens adultos não há tanta preocupação com a doença periodontal, pois eles são mais
sujeitos à gengivite.
Renato de Vasconcelos Alves
Para os adultos, contudo, a incidência de
doença periodontal é muito maior do que nos adolescentes,
por isso precisamos nos concentrar mais na manutenção de índices de placa abaixo de 20% para fi car mais tranquilos. Uma
avaliação periodontal feita na primeira consulta em que se faz
o PSR (Peridontal Simplified Record) permite diagnosticar, de
forma rápida e eficaz, a presença de problemas periodontais
presentes antes do tratamento ortodôntico e indicar também
o tipo de solução a ser adotada”, acentua.
Morea complementa afi rmando que no que diz respeito
ao período pós-tratamento, o paciente deve fazer controles
periódicos com o seu periodontista, conforme o risco
individual de doença que apresenta. “Uma observação à parte
deve ser feita para os retainers fi xos linguais, que difi cultam o
uso do fi o dental. Nestes pacientes deve ser feita uma limpeza
sistemática e frequente destes dispositivos, a fi m de evitar o
aparecimento de doença periodontal”, insiste.
A presença de dispositivos ortodônticos na cavidade
bucal, conforme Alves, por si só já representa uma difi culdade a
mais para a realização do adequado controle do biofi lme. “Para
os pacientes que apresentam saúde periodontal no início do
tratamento ortodôntico, as avaliações ortodônticas mensais
podem ser sufi cientes para detectar precocemente quaisquer
alterações periodontais ou difi culdades no controle do biofi lme.
Para tanto, é fundamental que os profissionais realizem um
correto exame periodontal, com sondagem e avaliação dos índices
de placa.
Já para os pacientes tratados periodontalmente
e que estejam sob tratamento ortodôntico, o acompanhamento
especializado do periodontista em intervalos regulares é extremamente
recomendável, visto que o especialista em Periodontia
terá os registros prévios de toda a condição periodontal
prévia ao tratamento ortodôntico e será capaz de diagnosticar
e atuar em possíveis recidivas da infl amação”, assegura.
Já Tramontina reafi rma que o diagnóstico periodontal é fundamental para avaliarmos o risco ou a susceptibilidade à
doença periodontal.
“As medidas preventivas mais importantes
são o tratamento periodontal prévio, desde os quadros inflamatórios mais leves como gengivite, acompanhamento e reavaliação
da condição periodontal com controle de placa profissional
periodicamente e tratamento ortodôntico criterioso em casos
de pacientes susceptíveis à doença periodontal”, afirma.
PARCERIA CONSTANTE
O ponto fundamental da relação Periodontia e Ortodontia,
segundo Alves, é que a movimentação ortodôntica
irá alcançar resultados satisfatórios quando em presença de
saúde periodontal; para isso, controle de biofilme é de suma
importância, devendo o paciente ser sempre orientado e motivado
com vistas a estes procedimentos.
“É importante também
que os limites biológicos sejam respeitados nos casos de
pacientes com periodonto reduzido submetidos a tratamento
ortodôntico. Forças leves para a movimentação e monitoramento
constante do estado periodontal são fundamentais
para prevenir problemas mais graves.
Além disso, a estreita
relação entre o ortodontista e o periodontista, inclusive considerando
interromper a mecânica ortodôntica em situações
mais críticas, representa condição indispensável para a manutenção
do bom estado periodontal”, especifi ca.
Na opinião de Tramontina, a inter-relação Ortodontia
e Periodontia é muito ampla e ao mesmo tempo fundamental
para o sucesso de tratamentos mais complexos.
“A Ortodontia
contribui para a melhoria estética e funcional em casos de pacientes
periodontais que apresentaram migração patológica de
dentes. Já a Periodontia permite diminuir os riscos de problemas
como, agravamento de doença periodontal em razão do
tratamento ortodôntico e do aparecimento de recessões pela
avaliação e, em alguns casos, aplicar procedimentos cirúrgicos
mucogengivais para diminuir a possibilidade de recessão, além
de auxiliar na manutenção da saúde periodontal nos pacientes
em tratamento ortodôntico, em especial nos adultos”, frisa.
Tanto Cristina quanto Morea ressaltam que “a colaboração
e a soma da experiência entre os vários especialistas da
Odontologia, como no caso ortodontista e periodontista, é indispensável
para a obtenção de resultados sempre melhores
para os pacientes que atendemos e também contribui para
melhorar a imagem da nossa categoria profi ssional”.
De acordo com Vellini, o assunto em pauta reverte-se,
na atualidade, da mais alta importância, devendo-se constituir
em um tema obrigatório nos centros de ensino e nos principais
textos relativos à especialidade.
“Dos cursos de mestrado e especialização
que ministramos na Universidade Cidade de São
Paulo e no Instituto Vellini dedicamos um capítulo especial ao
tratamento de pacientes com envolvimento periodontal que
necessitam se submeter a tratamento ortodôntico”, finaliza.