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PerioNews Jan/Fev. 2011


LEITURAS ESSENCIAIS

Sob coordenação do Prof. Dr. Antônio Wilson Sallum, editor científi co da revista, a presente coluna selecionou alguns artigos científi cos publicados em periódicos de circulação internacional, fez a leitura crítica e traz comentários dos mesmos. Mais uma forma de ampliar nossos conhecimentos. Confira.

Artigo 1: Berchier CE, Slot DE, Van Der Weijden GA. The efficacy of 0.12% chlorhexidine mouthrinse compared with 0,2% on plaque accumulation and periodontal parameters: a systematic review. J Clin Periodontol 2010;37:829-39.

Por que é interessante: o digluconato de clorexidina tem seu uso consolidado como agente de controle químico de placa e como agente anti-infl amatório. Existem diversas indicações de uso dessa substância: após cirurgia periodontal e peri-implantar, para pacientes com limitação motora e pacientes com idade avançada. O uso da clorexidina por médio e longo prazo pode provocar alguns efeitos colaterais, sendo a alteração de paladar o mais frequente. Tendo em vista a necessidade de minimizar os efeitos colaterais dessa substância, tem sido propostas concentrações menores, como a concentração de 0,12%. Este artigo consiste em uma revisão sistemática, que tem como princípio reunir, de forma organizada, resultados de pesquisas clínicas e auxiliar na explicação de diferenças encontradas entre estudos primários que investigam a mesma questão. Esse tipo de estudo facilita a elaboração de diretrizes clínicas, sendo extremamente útil para tomadas de decisão na área de saúde. Desta forma, esta revisão teve como objetivo comparar a efi cácia das concentrações de 0,12% e 0,2% no controle de placa e na melhora nos parâmetros clínicos periodontais (gengivite e periodontite).

Desenho experimental: foram realizadas buscas manuais e eletrônicas até fevereiro de 2010. Para inclusão no estudo, os artigos deveriam ser ensaios clínicos controlados, conduzidos em humanos com idade maior ou igual a 18 anos e com boa saúde sistêmica. Deveriam ainda comparar a clorexidina a 0,12% com a concentração de 0,2%. Foram considerados os seguintes parâmetros: índice de placa, índice gengival, níveis de gengivite, profundidade de sondagem e nível de inserção clínica.

Os achados: considerando-se os critérios de inclusão, foram selecionados oito artigos. Desses oito, foi possível submeter sete à meta-análise. Comparando-se as concentrações de 0,12% e 0,2% de clorexidina, as informações relativas à infl amação gengival foram esparsas e não foi encontrado nenhum estudo que comparasse as duas concentrações e avaliassem a profundidade de sondagem ou o nível de inserção clínica. Em relação à inibição da placa, os resultados mostraram uma pequena, mas signifi cante diferença em favor da concentração de 0,2%. No entanto, a relevância clínica dessa diferença é provavelmente irrelevante.

Comentários: a clorexidina é um agente antiplaca com efeito consolidado e em uso há mais de 40 anos. Esta revisão sistemática confi rma, mais uma vez, a segurança em seu uso em uma concentração menor, que leva a menores efeitos colaterais e que, ainda assim, mantém seu efeito antiplaca.

Unitermos: Chlorhexidine; Concentration; Gingivitis; Mouthrinse; Mouthwash; Plaque; Systematic review.

Revisado por: Mônica Grazieli Corrêa. Doutoranda em Periodontia – FOP-Unicamp.


Artigo 2: Shimazaki Y, Egami Y, Matsubara T, Koike G, Akifusa S, Jingu S et al. Relationship between obesity and physical fi tness and periodontitis. J Periodontol 2010;81(8):1124-31.

Por que é interessante: a periodontite é uma doença infl amatória com alta prevalência que tem como fator etiológico primário o biofi lme. No entanto, essa doença pode ser modifi cada por diversos fatores, como fatores do hospedeiro, do meio ambiente e genéticos. A obesidade tem chamado atenção por ser o fator de risco para várias doenças decorrentes do estilo de vida e por ser o centro da síndrome metabólica. Além disso, alguns estudos têm mostrado uma relação positiva entre obesidade e doença periodontal. Embora esses estudos tenham mostrado relação positiva entre as duas doenças, outros estudos não encontraram os mesmos resultados, além de considerar grupos de idades e variáveis diferentes. Dessa forma, este estudo teve como objetivo esclarecer de forma mais clara a relação entre obesidade e doença periodontal por meio da análise da relação entre o índice de obesidade e o nível máximo de consumo de oxigênio (V_O2) durante o exercício e a periodontite.

Desenho experimental: foram incluídos no estudo 1.160 indivíduos (idade entre 20 e 77 anos) que receberam tratamento médico e odontológico e que apresentaram os prérequisitos para essa análise. As condições periodontais foram avaliadas utilizando-se o índice das necessidades de tratamento periodontal na comunidade (CPI) e indivíduos com três ou mais sextantes de CPI, três ou quatro foram defi - nidas como portadores de periodontite severa. O índice de massa muscular e a porcentagem de gordura corporal foram usados como indicadores de obesidade e o V_O2 durante o exercício foi usado como indicador de aptidão física. Foi examinado o efeito isolado e a interação da obesidade e V_O2 sobre a periodontite severa.

Os achados: o estudo demonstrou que indivíduos magros e com altos níveis de aptidão física tiveram signifi cante menor risco de desenvolver periodontite severa.

Comentários: embora o estudo tenha como foco um assunto importante e atual, existem algumas limitações em seu desenho. O CPI é um método de análise que pode subestimar a severidade da doença periodontal por examinar a profundidade de sondagem de somente alguns dentes e não analisar o nível de inserção clínica. O estudo é epidemiológico e transversal. Portanto, não se pode determinar mecanismos que expliquem a relação entre obesidade e aptidão física e periodontite. Sendo assim, estudos de coorte, intervencionais e experimentais são necessários para estabelecer associação causal entre essas condições.

Unitermos: Epidemiology; Obesity; Periodontal diseases; Periodontitis; Physical fi tness.

Revisado por: Mônica Grazieli Corrêa. Doutoranda em Periodontia – FOP-Unicamp.


Artigo 3: Takeuchi N, Ekuni D, Yamamoto T, Morita M. Relationship between the prognosis of periodontitis and occlusal force during the maintenance phase – a cohort study. J Periodont Res 2010;45:612-17.

Por que é interessante: a manutenção da saúde após o tratamento periodontal é um grande desafi o para os periodontistas. Existem vários estudos que discutem os fatores de risco para a progressão da doença periodontal e que afi rmam que durante a fase de manutenção o risco dessa progressão é maior. Como fatores de risco durante a fase de manutenção podem ser considerados: perda óssea inicial, envolvimento de furca, número de bolsas residuais, altas contagens de Porphyromonas gingivalis e Treponema denticola, número de dentes perdidos, tabagismo e estresse. Além desses fatores, o trauma oclusal tem sido sugerido como fator de risco durante a fase de manutenção. Poucos estudos têm analisado a relação entre progressão da periodontite e fatores oclusais em sujeitos individualmente. Portanto, o objetivo desse estudo de coorte foi investigar alguma relação entre habilidade de mordida (força oclusal, pressão oclusal, área de contato oclusal) e a progressão da periodontite durante a fase de manutenção.

Desenho experimental: 194 pacientes foram monitorados durante três anos durante a fase de manutenção da terapia periodontal. Os sujeitos com progressão da doença (grupo progressão) foram defi nidos tendo-se como base a presença de dois ou mais dentes com perda de inserção proximal longitudinal de 3 mm, ou mais, ou perda dentária como resultado da doença periodontal durante o estudo. Indivíduos com alta força oclusal foram identifi cados como homens com força maior do que 500 N e mulheres com força oclusal maior do que 370 N. A associação entre capacidade de mordida e a progressão da doença foi investigada utilizando-se regressão logística.

Os achados: havia 83 sujeitos no grupo progressão e 111 no grupo não progressão. A regressão logística demonstrou que a progressão da doença periodontal estava signifi cantemente associada com a presença de um ou mais dentes com nível de inserção clínica de sete ou mais milímetros (odds ratio: 2.397; 95% intervalo de confi ança: 1.306 – 4.399) (p = 0,005) e baixa força oclusal force (odds ratio: 2.352; 95% intervalo de confi ança: 1.273 – 4.346) (p = 0,006). Sendo assim, a presença de um ou mais dentes com nível de inserção clínica maior ou igual a sete e baixas forças oclusais podem ser fatores de risco para a progressão da doença periodontal durante fase de manutenção.

Comentários: este estudo investiga a infl uência do trauma de oclusão sobre a progressão da periodontite. Muitas vezes, durante o tratamento periodontal e a fase de manutenção, os fatores oclusais são negligenciados e não recebem sua devida importância. Uma simples análise das forças oclusais pode melhorar tanto a manutenção dos resultados do tratamento periodontal como força mastigatória e qualidade de vida dos pacientes.

Unitermos: Occlusal force; Risk factors; Periodontal progression; Maintenance phase.

Revisado por: Mônica Grazieli Corrêa. Doutoranda em Periodontia – FOP-Unicamp.


Artigo 4: Yek EC, Cintan S, Topcuoglu N, Kulekci G, Issever H, Kantarci A. Effi cacy of Amoxicillin and Metronidazole Combination for the Management of Generalized Aggressive Periodontitis. Periodontol 2010;81:964-74.

Por que é interessante: a periodontite agressiva é uma doença de rápida progressão, que se inicia precocemente e leva à grande número de perda dental. O seu tratamento e manutenção dos resultados é um grande desafi o para os clínicos. Assim como para as doenças crônicas, a abordagem terapêutica primária para a P. agressiva é o tratamento não cirúrgico. No entanto, muitas vezes os resultados não são duradouros como desejado devido à recolonização bacteriana. Dessa forma, sugere-se o uso de antibióticos como adjuntos para a terapia na tentativa de prolongar ou estabilizar os resultados. Poucos estudos analisam a recolonização bacteriana e os resultados em relação ao efeito da combinação de dois antibióticos não são muito claros. Assim, este trabalho teve como objetivo analisar os efeitos da combinação da amoxicilina e do metronidazol como adjuntos da raspagem e alisamento radiculares sobre os parâmetros clínicos e microbiológicos em pacientes com periodontite agressiva generalizada e ainda analisar em longo prazo os resultados obtidos e a recolonização bacteriana.

Desenho experimental: 28 pacientes foram aleatoriamente incluídos no estudo. O grupo teste (n = 12) recebeu amoxicilina + metronidazol e raspagem e alisamento radicular. O grupo controle (n = 16) recebeu somente raspagem e alisamento radicular. Além da análise clínica, amostras subgengivais de placa foram analisadas para total de bactérias cultiváveis e para presença de Porphyromonas gingivalis, Tannerella forsythia (T. forsythensis), Treponema denticola, Prevotella intermedia, Prevotella nigrescens, Prevotella pallens e Aggregatibacter actinomycetemcomitans (Actinobacillus actinomycetemcomitans) usando a reação de polimerase em cadeia (PCR).

Os achados: os resultados desse estudo sugerem que a combinação de amoxicilina e metronidazol como adjunto de raspagem e alisamento radiculares leva a resultados clínicos melhores quando comparados com o tratamento mecânico isoladamente. Essa abordagem terapêutica farmacológica resultou em redução signifi cante de T. forsythia e preveniu sua recolonização por seis meses, sugerindo que T. forsythia pode determinar a estabilidade a longo prazo dos resultados do tratamento periodontal.

Comentários: este estudo demonstrou que é válido utilizar a combinação de antibióticos como adjunto da terapia periodontal e que a severidade da doença agressiva pode estar ligada não somente ao A.a., mas também a T. forsythia. Portanto, deve-se voltar a atenção a outras bactérias que não somente o A.a. no estudo da etiopatogênese da doença agressiva.

Unitermos: Aggressive periodontitis; Amoxicillin; Metronidazole; Tannerella forsythia.

Revisado por: Mônica Grazieli Corrêa. Doutoranda em Periodontia – FOP-Unicamp.


Artigo 5: Zabor EC, Klebanoff M, Yu K, Zhang J, Nansel T, Andrews W et al. Association between periodontal disease, bacterial vaginosis, and sexual risk behaviours. J Clin Periodontol 2010;37:888-93.

Por que é interessante: a doença periodontal é um grupo de doenças orais infl amatórias e diversos estudos têm sugerido que a periodontite poderia estar associada à ocorrência de parto prematuro, bebê de baixo peso ao nascer e pré-eclâmpsia. A vaginose bacteriana é uma condição de alta prevalência e com etiologia desconhecida. A vaginose afeta aproximadamente 30% das mulheres entre 14 e 49 anos. Essa condição é caracterizada por uma diminuição das espécies de lactobacillus normalmente predominantes e por um correspondente aumento na diversidade de microrganismos anaeróbios. Tanto a periodontite como a vaginose têm sido relacionadas ao aumento de partos prematuros e de bebês de baixo peso ao nascer. Este estudo teve como objetivo analisar a relação entre periodontite e vaginose.

Desenho experimental: foram analisados dados de 3.569 mulheres incluídas nesse estudo. A doença periodontal foi defi nida como a presença de três ou mais sítios com perda de inserção maior ou igual a 4 mm. A vaginose bacteriana foi diagnosticada como nível maior ou igual a sete de coloração gram Nugent.

Os achados: 28% das mulheres com vaginose bacteriana apresentaram doença periodontal, correspondendo um risco 1,29 (95% CI: 1,12, 1,47) vezes maior de presença de doença periodontal entre mulheres com vaginose. Sexo oral com parceiros não circuncidados foi associado com um risco 1,28 (95% CI: 0,97, 1,69) vezes maior de desenvolvimento de doença periodontal, quando comparadas com sexo oral com parceiros circuncidados. No entanto, essa associação não foi estatisticamente significativa.

Comentários: a associação entre periodontite e vaginose foi pequena, no entanto, signifi cante. Essa associação precisa ser investigada para que se possa entender os mecanismos que as duas condições compartilham. Pode ser que exista uma relação positiva entre periodontite, práticas sexuais e condição de circuncisão do parceiro e essa relação deve ser investigada. Somente depois de entender essas relações, as respostas do organismo poderão ser moduladas ou as condições evitadas para que se possa diminuir o risco de ocorrência de parto prematuro.

Unitermos: Bacterial; Bacterial infections; Epidemiology; Periodontal diseases; Sexual behaviour; Vaginosis.

Revisado por: Mônica Grazieli Corrêa. Doutoranda em Periodontia – FOP-Unicamp.

 

 


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