SUGESTÃO DE LEITURA
Sob coordenação do Prof. Dr. Antonio Wilson Sallum, editor científico da revista, a presente coluna selecionou alguns artigos científicos publicados em periódicos de circulação internacional, fez a leitura crítica e traz comentários dos mesmos. Mais uma forma de ampliar nossos conhecimentos. Confira.
Artigo 1: Casarin RC, del Peloso Ribeiro E, Nociti FH Jr, Sallum AW, Sallum EA, Ambrosano GM et al. A double-blind randomized clinical evaluation of enamel matrix derivative proteins for the treatment of proximal class-II furcation involvements. J Clin Periodontol 2008;35(5):429-37.
Por que é interessante: lesões de furca proximais são defeitos periodontais de difícil tratamento e prognóstico duvidoso. Este artigo teve como objetivo avaliar a resposta clínica do tratamento de lesões de furca proximais tratadas com proteínas derivadas da matriz do esmalte (PDME).
Desenho experimental: foram selecionados 15 pacientes, com um par de furcas proximais Classe II contralaterais cada, que apresentavam PS ≥ 5 mm e SS. Os pacientes foram submetidos a dois tratamentos, constituindo um estudo de boca dividida. No momento da cirurgia, os tratamentos foram sorteados para cada lesão de furca: controle – retalho para raspagem + condicionamento com EDTA 24% (N = 15) e teste – retalho para raspagem + PDME + condicionamento com EDTA 24% (N = 15). No Baseline, dois, quatro e seis meses após a terapia, foram avaliados os seguintes parâmetros: índice de placa, sangramento a sondagem, profundidade de sondagem, posição da margem gengival, níveis de inserção clínica vertical e horizontal relativos, níveis ósseos vertical e horizontal e fechamento da lesão de furca.
Os achados: o tratamento de lesões de furca proximais com proteínas derivadas da matriz de esmalte não promoveu aumento na redução da profundidade de sondagem ou do ganho de inserção clínica e ósseo, mas resultou em uma maior taxa de conversão de furca II em furca I.
Comentários: este estudo clínico prospectivo randomizado e duplo-cego mostrou-nos que o tratamento de lesões de furca Classe II continua sendo um grande desafio clínico. Estas lesões são de difícil acesso em virtude de sua anatomia (divergência das raízes, tamanho da entrada da furca). A utilização adjunta de PDME ou a realização somente de acesso para raspagem conferiu resultados semelhantes em relação aos parâmetros clínicos analisados. No entanto, o tratamento com PDME resultou em maior conversão de furcas grau II em furcas grau I.
Unitermos: Enamel matrix derivative; Open flap debridement; Proximal furcation; Randomized clinical trial; Regenerative procedures; Split mouth.
Revisado por: Mônica Grazieli Corrêa. Doutoranda em Periodontia – FOP-Unicamp.
Artigo 2: Huynh-Ba G, Kuonen P, Hofer D, Schmid J, Lang NP, Salvi GE. The effect of periodontal therapy on the survival rate and incidence of complications of multirooted teeth with furcation involvement after an observation period of at least 5 years: a systematic review. J Clin Periodontol 2009;36(2):164-76.
Por que é interessante: lesões de furca proximais são defeitos periodontais de complexo tratamento e prognóstico duvidoso. A manutenção em longo prazo da estabilidade dos resultados da terapia dessas lesões é difícil de ser alcançada. Este artigo consiste de uma revisão sistemática, que teve como princípio reunir, de forma organizada, resultados de pesquisas clínicas e auxiliar na explicação de diferenças encontradas entre estudos primários que investigam a mesma questão. Esse tipo de estudo facilita a elaboração de diretrizes clínicas, sendo extremamente útil para tomada de decisão na área de saúde. Esta revisão sistemática tem como objetivo analisar a taxa de sobrevivência e de complicações de dentes multirradiculares com envolvimento de furca submetidos à terapia periodontal após, pelo menos, cinco anos.
Desenho experimental: foram realizadas buscas manuais e eletrônicas até janeiro de 2008. A seleção, aquisição e análise dos trabalhos foi executada, independentemente, por três revisores. Para inclusão no estudo, os artigos deveriam ser longitudinais, prospectivos ou retrospectivos. Foram considerados os seguintes parâmetros: sobrevivência do dente ao longo de cinco anos de observação e a prevalência de complicações (recorrência de periodontite, abscessos periodontais, lesões endoperiodontais, complicações endodônticas, lesões cariosas e fraturas radiculares).
Os achados: foram encontradas 22 publicações que atenderam os critérios de inclusão. Taxas de sobrevivência de até 100% foram obtidas para molares com envolvimento de furca, incluindo variadas terapias. Lesões de furca Grau I responderam positivamente com terapia não cirúrgica. Fraturas radiculares e falhas endodônticas foram as complicações mais frequentemente observadas após procedimentos ressectivos.
Comentários: não foram encontrados na literatura estudos clínicos controlados e randomizados comparando resultados de terapias. Desta forma, esta revisão sistemática não pode identificar nenhum procedimento como superior ou mais adequado. No entanto, observou-se que dentes multirradiculares com lesões de furca apresentaram boa taxa de sobrevivência ao longo do tempo. As causas mais frequentes de complicações não estavam associadas à progressão da doença periodontal, e sim com fraturas radiculares e problemas endodônticos. Abordagens mais recentes, como regeneração tecidual guiada e tratamento com proteínas derivadas da matriz do esmalte, não conferiram fechamento completo dessas lesões. Uma adequada terapia periodontal de suporte mostrou-se mais importante para a sobrevivência dos dentes do que as características das lesões de furca e terapia escolhida para seu tratamento. É necessária a realização de estudos clínicos controlados e randomizados comparando terapias para que seja estabelecida uma linha de conduta no tratamento dessas lesões.
Unitermos: Furcation involvement; Guided tissue regeneration (GTR); Hemisection; Nonsurgical treatment; Root resection; Surgical treatment; Tooth survival; Tunnel.
Revisado por: Mônica Grazieli Corrêa. Doutoranda em Periodontia – FOP-Unicamp.
Artigo 3: Nabet C, Lelong N, Colombier ML, Sixou M, Musset AM, Goffinet F et al. Maternal periodontitis and the causes of preterm birth: the case-control Epipap study. Epipap Group. J Clin Periodontol 2010;37(1):37-45.
Por que é interessante: o parto prematuro é a maior causa de morbidade e mortalidade perinatal e sua taxa tem aumentado continuamente por todo o mundo. Inflamação e infecção exercem importante papel na patogênese do parto prematuro por meio de variados mecanismos patofisiológicos. A doença periodontal é um grupo de doenças orais inflamatórias e diversos estudos têm sugerido que a periodontite poderia estar associada à ocorrência de parto prematuro, bebê de baixo peso ao nascer e pré-eclampsia. No entanto, os métodos de estudo são muito variáveis e os resultados inconsistentes. Desta forma, este estudo teve como objetivo determinar se a periodontite em mulheres grávidas estava associada ao risco aumentado de parto prematuro. Teve, ainda, como objetivo examinar essa relação de acordo com as causas do parto prematuro em uma grande população de mulheres.
Desenho experimental: este estudo foi realizado no período de 2003 a 2006, em seis maternidades, de diferentes regiões da França. Foram selecionadas todas as mães que tiveram um único bebê vivo entre 22 e 36 semanas de gestação. Foram excluídas do estudo mulheres abaixo de 18 anos de idade, que não falavam francês ou que apresentavam infecção por HIV, diabetes não controlado e condições médicas que necessitassem do uso de antibióticos para exame dental, mulheres com menos que seis dentes na boca ou quando o recém-nascido apresentasse severas malformações congênitas. O grupo controle se constituiu de mães que tiveram um único bebê vivo com mais de 37 semanas de gestação, considerando-se os mesmos critérios de exclusão. Ao todo, foram incluídos 1.108 partos pré-termo e 1.094 partos a termo. As mulheres foram examinadas por 11 dentistas, cegos e calibrados, no 2º ou no 4º dia após o parto. Foram sondados 14 dentes e seis sítios por dente. Foram registrados o número de dentes e a quantidade de cálculo. Além disso, foram examinados: profundidade de sondagem, nível de inserção clínica e sangramento a sondagem. As mães foram ainda entrevistadas para obtenção de informações quanto a: idade, nacionalidade, nível de instrução, estado civil, emprego durante a gravidez, altura e peso antes da gravidez, tabagismo antes e durante a gravidez e número de visitas pré-natais. Dados como complicações obstétricas (pré-eclampsia, infecção, hemorragia) e natureza do parto (espontâneo ou induzido) foram retirados dos registros médicos.
Os achados: a presença de periodontite materna foi associada a risco aumentado de parto prematuro devido à préeclampsia. A periodontite não foi relacionada a parto prematuro espontâneo.
Comentários: este estudo traça a relação entre periodontite e parto prematuro. Foram selecionadas grávidas de seis maternidades diferentes, constituindo assim, uma população representativa. Os autores fizeram distinção entre parto prematuro espontâneo e parto prematuro induzido, observando que a periodontite estava relacionada, de forma significante, somente ao parto induzido pela pré-eclampsia. Além disso, esta relação foi diretamente proporcional à extensão da periodontite. Ainda é necessária a realização de estudos para definir os mecanismos patofisiológicos que existem entre periodontite e pré-eclampsia. O tratamento da periodontite durante a gravidez é seguro e deve ser realizado. Isso conferirá à grávida melhor qualidade de vida e diminuirá o risco de transmissão de bactérias orais para o feto, além de reduzir as chances de ocorrência de pré-eclampsia e parto prematuro.
Unitermos: Case-control; Epidemiology; Periodontal disease; Periodontitis; Pre-eclampsia; Pregnancy complication; Pregnancy; Preterm birth; Rupture of membranes.
Revisado por: Mônica Grazieli Corrêa. Doutoranda em Periodontia – FOP-Unicamp.
Artigo 4: Chen L, Wei B, Li J, Liu F, Xuan D, Xie B et al. Association of periodontal parameters with metabolic level and systemic inflammatory markers in patients with type 2 diabetes. J Periodontol 2010;81(3):364-71.
Por que é interessante: o diabetes mellitus (DM) é um problema global de saúde pública que afeta atualmente 177 milhões de pessoas. A previsão é de que em 2025, 350 milhões de pessoas sejam portadoras de DM. Esse crescimento se dará, em sua maior parte, pelo aumento do número de casos de DM tipo 2 em países em desenvolvimento, como o Brasil. Segundo o Ministério da Saúde, no Brasil, hoje, existem 6,2 milhões de pessoas portadoras de DM. Estima-se ainda, que o número verdadeiro seja o dobro, uma vez que pelo menos 50% das pessoas não sabem que possuem a doença. A periodontite, por sua vez, é uma doença inflamatória comum e é considerada a 6ª complicação clássica do DM. A periodontite ainda tem sido considerada como um fator de risco para o controle glicêmico desses pacientes. Este trabalho teve como objetivo esclarecer a relação existente entre parâmetros periodontais e níveis metabólicos e de marcadores inflamatórios em pacientes com DM.
Desenho experimental: 140 pacientes adultos, portadores de DM tipo 2, foram selecionados para esse estudo. Foram analisados os seguintes parâmetros clínicos periodontais: profundidade de sondagem, sangramento a sondagem, recessão gengival e nível de inserção clínica. Foram analisados ainda os níveis de hemoglobina glicosilada, glicemia de jejum, proteína C reativa, fator de necrose tumoral α (TNF- α) e perfil lipídico. Os pacientes foram divididos em três grupos, de acordo com os tercis da média da profundidade de sondagem.
Os achados: a periodontite crônica estava associada a níveis metabólicos glicêmicos e de proteína C reativa em pacientes com DM tipo 2.
Comentários: este estudo mostrou que a severidade da periodontite em pacientes diabéticos do tipo 2 está relacionada, significativamente, com o controle glicêmico. A periodontite afeta o controle glicêmico pela presença das bactérias periodontopatogênicas e por meio dos monócitos e macrófagos, que desencadeiam a produção de citocinas pró-inflamatórias. Além disso, pacientes diabéticos possuem o fenótipo monócito- macrófago hiper-responsivo, o que exacerba a produção dessas citocinas e mediadores, que por sua vez atuam diretamente sobre o controle glicêmico. Os autores sugerem que a profundidade de sondagem é um parâmetro preditivo de níveis indesejáveis de hemoglobina glicosilada (> 8,0%), o que auxiliaria o controle glicêmico desses pacientes. Este trabalho suporta a hipótese de que a periodontite dificulta o controle glicêmico de pacientes diabéticos. No entanto, não há consenso na literatura quanto ao efeito do tratamento periodontal sobre o controle glicêmico. Portanto, a realização de estudos intervencionais, longitudinais e prospectivos é necessária para que seja estabelecida essa relação.
Unitermos: Diabetes mellitus; Lipid profile; Periodontitis; Tumor necrosis factor-alpha.
Revisado por: Mônica Grazieli Corrêa. Doutoranda em Periodontia – FOP-Unicamp.
Artigo 5: Azarpazhooh A, Shah PS, Tenenbaum HC, Goldberg MB. The effect of photodynamic therapy for periodontitis: a systematic review and meta-analysis. J Periodontol 2010;81(1):4-14.
Por que é interessante: o tratamento periodontal não-cirúrgico por meio de raspagem e alisamento radicular mostra bons resultados ao longo do tempo. No entanto, a busca por técnicas eficazes e mais previsíveis na eliminação bacteriana e de cálculo é uma constante. Tendo em vista esse objetivo, foi desenvolvida a terapia fotodinâmica, que segue o princípio de uma quimioterapia moderna, por meio de toxicidade seletiva. Este artigo consiste em uma revisão sistemática, que tem como princípio reunir, de forma organizada, resultados de pesquisas clínicas e auxiliar na explicação de diferenças encontradas entre estudos primários que investigam a mesma questão. Esse tipo de estudo facilita a elaboração de diretrizes clínicas, sendo extremamente útil para tomadas de decisão na área de saúde. Além disso, neste caso foi possível a aplicação de meta-análise, o que confere muitas vantagens para o estudo, já que consiste em um método quantitativo. Desta forma, este artigo teve como objetivo verificar a eficácia e segurança da terapia fotodinâmica para o tratamento da periodontite, em adultos, como terapia primária ou como terapia adjunta do tratamento não-cirúrgico convencional.
Desenho experimental: foram realizadas buscas, em fontes relevantes até maio de 2009, para estudos clínicos controlados de terapia fotodinâmica comparados com placebo, tratamento não-cirúrgico e não-intervenção em população adulta. Dados relativos às mudanças no nível clínico de inserção, profundidade de sondagem, retração gengival e índice gengival e de placa de boca toda foram extraídos e submetidos à meta-análise. A diferença média agrupada foi apresentada.
Os achados: foram incluídos nessa revisão sistemática somente cinco estudos. A terapia fotodinâmica como terapia primária ou como terapia adjunta não se mostrou superior ao tratamento não-cirúrgico convencional.
Comentários: este estudo incluiu somente cinco trabalhos, cuja população era muito pequena para a análise realizada. Esse fato confere um risco moderado a alto, de viés, diminuído o poder desta revisão sistemática. A terapia fotodinâmica como terapia única ou como terapia adjunta não mostrou vantagens significativas, não justificando, portanto, o seu uso. Os autores sugeriram que a combinação das terapias, fotodinâmica e convencional não-cirúrgica, indicou uma provável eficácia no ganho de inserção e na redução da profundidade de sondagem. Entretanto, essa provável eficácia está baseada nos resultados de um único artigo, o que é insuficiente para estabelecer uma linha de conduta. Dessa forma, a aplicação rotineira da terapia fotodinâmica para uso clínico não pode ser recomendada. Estudos clínicos longitudinais, prospectivos e controlados são necessários para a apropriada avaliação dessa terapia.
Unitermos: Meta-analysis; Periodontal disease/therapy; Periodontitis; Photochemotherapy; Photosensitizing agents; Review; Systematic.
Revisado por: Mônica Grazieli Corrêa. Doutoranda em Periodontia – FOP-Unicamp.
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