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Saulo Cabral dos Santos

Professor da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Pernambuco; Doutor em Clínica Odontológica (FOP/UNICAMP – SP)

Afiação de Instrumentos Manuais



A doença periodontal crônica tem como terapêutica básica um conjunto de procedimentos que objetivam combater a enfermidade instalada e evitar sua recidiva. A motivação do indivíduo e as instruções de higiene bucal, a raspagem e o alisamento radicular e a remoção dos fatores retentivos de placa são a base do tratamento periodontal1-2.
A importância de se intensificar a motivação do paciente para se alcançar as metas da terapia de suporte3-4, o imperativo da remoção dos fatores de retenção de biofilme5 e a necessidade de uma raspagem e alisamento radicular com qualidade6, estão muito bem estabelecidos na literatura. Contudo, para se alcançar uma boa raspagem mecânica e obter resultados clínicos satisfatórios precisamos de profissionais bem treinados e de instrumental apropriado. As curetas de Gracey (específicas), as curetas McCall e as foices (Universais) são alguns dos principais instrumentos para a raspagem mecânica da superfície dental. Esses instrumentos possuem ângulos de corte que são formados pelo encontro dos bordos de duas superfícies contínuas7. Essas superfícies devem ser lisas e brilhantes, caracterizando o poder de corte do instrumental afiado8. As superfícies de corte podem ser classificadas como funcionais, quando o fio de corte está na mesma direção do curso de corte do instrumento, sendo capazes de remover estruturas na superfície dental, ou não funcionais, quando o fio de corte está perpendicular ao curso de corte do instrumento9.

Por que afiar?
Durante a raspagem e o alisamento radicular, após alguns golpes, os instrumentos periodontais vão perdendo paulatinamente a sua capacidade de corte, tornando-se menos eficientes na remoção do biofilme e dos indutos radiculares10. A perda de corte desse instrumento leva a uma diminuição da sensibilidade tátil do operador, impõe um aumento na pressão de raspagem, podendo desencadear fadiga muscular, aumento do tempo de trabalho e desconforto para o paciente11.

Quando afiar?
O uso sequenciado dos instrumentos periodontais promovem pequenos desgastes nas superfícies metálicas arredondando os ângulos de corte e, consequentemente, diminuindo o seu poder de ação. Com a lâmina “cega” o profissional não consegue sentir a ponta do instrumento, topando na superfície do cálculo, havendo um deslizamento e até um “polimento” desses depósitos que se tornam mais difíceis de serem removidos.
A manutenção da qualidade da ação terapêutica da raspagem exige a afiação antes e, em algumas circunstâncias, a depender da qualidade do instrumento e da afiação anteriormente conseguida, também durante o atendimento clínico-cirúrgico. Para melhores resultados e manutenção de um poder de corte alto, pequenas afiações durante e logo após a utilização dos instrumentos são preconizadas12, pois, pequenas correções na perda do ângulo de corte são sempre mais fáceis e menos desgastantes para o instrumental do que a correção de um instrumento completamente sem poder de corte.

Com saber que um instrumento está afiado?
Testes com cilindros de plástico apropriados (Test Stick)12 ou tubetes plásticos de anestésicos autoclavados podem servir para determinar o grau do poder de corte do instrumento. Posicionando-se o instrumento sobre este cilindro, determinando-se o ângulo de raspagem e procedendo-se o movimento na direção correta, uma camada superficial deste plástico é levantada, seguida por um som metálico que caracteriza o corte adequado. Quando a afiação ainda não foi adquirida, o instrumento deslizará sobre a superfície de plástico sem promover uma remoção contínua.

Qual pedra devo utilizar?
As pedras de afiar devem impreterivelmente fazer parte dos kits de raspagem manual e serem esterilizadas em conjunto com todo o instrumental de Periodontia. Várias pedras estão disponíveis no mercado, contudo, o desenho da pedra, a origem (se natural ou artificial) ou uso de lubrificação ou não durante a afiação, levam a resultados diferentes nos instrumentos submetidos.
Um excelente trabalho de Andrade Acevedo e colaboradores13, analisou nove diferentes pedras de afiar e concluíram que: 1) As pedras cerâmica e tipo Arkansas (Neumar) mostraram-se muito finas, sendo indicadas para a manutenção do corte durante o tratamento; 2) As pedras de Arkansas (Hu-Friedy), Thompson e CE (Tipo Arkansas) apresentaram abrasividade maior com partículas muito regulares e arredondadas, sendo indicadas para a manutenção do corte e afiação rotineira de instrumentos parcialmente sem corte. 3) As pedras de óxido de alumínio, carborundum, Norton e JON (Óxido de Alumínio tipo Arkansas) mostraram-se grossas, com partículas grandes e irregulares, sendo indicadas para a afiação inicial de instrumentos sem corte, requerendo pedras mais finas para o acabamento final.

Como devo afiar?
Várias técnicas14-15 para afiação são preconizadas, contudo, muitos profissionais, principalmente os clínicos, têm bastante dificuldade em realizar a afiação, o que os leva, ao longo do tempo, a abandonar esta prática, necessária e importante, permanecendo em seus consultórios e ambulatórios com instrumentais ineficientes que não resolvem adequadamente o problema de seus pacientes. Descreveremos a seguir a técnica preconizada por Sherry Burns (2005)12 baseada nos ponteiros de um relógio (figura 1), o que facilita o entendimento, por não exigir uma abstração em termos de ângulos de posicionamento entre pedra e instrumento.

 

 Para afiar curetas de Gracey (Hu-Friedy)

Profissionais destros, ponta ímpar do instrumento: segurar o instrumento com a mão esquerda e a ponta a ser afiada voltada para baixo.

Posição da cureta: segurar a cureta com a ponta ativa voltada para sua direção e a haste terminal na posição de 11:00 horas.
Posição da pedra: posicioná-la na face direita da lâmina, na posição de 1:00 hora.

Profissionais destros, ponta par do instrumento (figura 2): segurar o instrumento com a mão esquerda e a ponta a ser afiada voltada para baixo.

Posição da cureta: segurar a cureta com a ponta ativa voltada para frente e a haste terminal na posição de 11:00 horas.
Posição da pedra: posicioná-la na face direita da lâmina, na posição de 1:00 hora.

Profissionais canhotos, ponta ímpar do instrumento (figura 3): segurar o instrumento com a mão direita e a ponta a ser afiada voltada para baixo.

Posição da cureta: segurar a cureta com a ponta ativa voltada para frente e a haste terminal na posição de 1:00 hora.
Posição da pedra: posicioná-la na face esquerda da lâmina, na posição de 11:00 horas.

Profissionais canhotos, ponta par do instrumento: segurar o instrumento com a mão direita e a ponta a ser afiada voltada para baixo.

Posição da cureta: segurar a cureta com a ponta ativa voltada para sua direção e a haste terminal na posição de 1:00 hora.
Posição da pedra: posicioná-la na face esquerda da lâmina, na posição de 11:00 horas.

 

 

Para afiar curetas universais

Profissionais destros: segurar o instrumento com a mão esquerda e a ponta a ser afiada voltada para baixo.

Posição da cureta: segurar a cureta com a ponta ativa voltada para sua direção e a haste terminal na posição de 12:00 horas.
Posição da pedra: coloque inicialmente na posição de 12:00 horas e depois incline suavemente para a posição de 1:00 hora.

Para afiar a outra face do instrumento basta virá-lo de modo que sua ponta ativa fique virada para frente. A pedra permanece na mesma posição (1:00 hora).

Profissionais canhotos: segurar o instrumento com a mão direita e a ponta a ser afiada voltada para baixo. 

Posição da cureta: segurar a cureta com a ponta ativa voltada para sua direção e a haste terminal na posição de 12:00 horas.
Posição da pedra: inicialmente na posição de 12:00 horas e inclinar suavemente para a posição de 11:00 horas.

Conclusão

Os profissionais de saúde que se preocupam com a qualidade do resultado e não apenas com a qualidade da técnica, precisam estar atentos para as condições que estão presentes antes e depois do ato do atendimento. A afiação dos instrumentos periodontais é uma dessas condições, que por sua simplicidade científica e inobservância diária, tende a ser desprezada, podendo comprometer toda uma cadeia de eventos, dificultando a resolutividade dos casos mais comuns.

Endereço para correspondência:
Saulo Cabral dos Santos
Curso de Odontologia - UFPE
Av. Prof. Morais Rego, s/nº - Cidade Universitária
CEP – 50670-901 – Recife - PE
Tel.: (81) 2126 8344
Email: saulodentista@gmail.com

Referências

  1. Axelsson P, Lindhe J. Effect of controlled oral hygiene procedures on caries and periodontal disease in adults. Journal of Clinical Periodontology 1978;5:131-151.
  2. Eaton KA, Kieser JB, Davies RM. The removal of root surface deposits. Journal of Clinical Periodontology 1985;12:141-152.
  3. Novaes Jr AB, Novaes AB. Compliance with supportive periodontal therapy. Part 1. Risk of non-compliance in the first 5-year period. Journal of Periodontology 1999;70(6):679-682.
  4. Jansson LE, Hagström KE. Relationship between compliance and periodontal treatment outcome in smokers. Journal of Periodontology 2002;73(6):602-607.
  5. Björn AL, Björn H, Grkovic B. Marginal fito f restorations and its relation to periodontal bone level. Part I: Metal fillings. Odontologisk Revy 1969;20;311-322.
  6. Cobb CM. Non-surgical pocket therapy mechanical. Annals of Periodontology 1996;1:443-490.
  7. Allen D, McFall WT, Hunter GC. Periodontics for the dental hygienist. 2nd ed. Philadelphia: Lea & Febiger; 1974;117.
  8. Glickman I. Clinical Periodontology: Prevention, diagnosis and treatment of periodontal disease in the practice of general dentistry. 4th ed. Philadelphia: WB Sauders Co; 1972:612-615.
  9. Antonini CJ, Brady J, Levine MP, Garcia WL. Scanning electron microscope study of scalers. J Periodontology 1977;48:45-48.
  10. Tal H, Panno JM, Vaidyanathan TK. Scanning electron microscope evaluation of wear of dental curettes during standardized root planning. J Periodontology 1985;56:532-536.
  11. Pattison GL, Pattison AM. Principles of sharpening. In: Periodontal instrumentation. Clinical guidance. Pattison GL, Patisson AM (editors). São Paulo: Editorial Médica Panamericana; 1996; p.263-283.
  12. Burns S. It's About Time To Get On The Cutting Edge. Hu-Friedy Mfg. Co., Inc. 2005:1-23.
  13. Andrade Acevedo RA, Cardozo AKV, Sampaio JEC. Scanning Electron Microscopic and Profilometric Study of Different Sharpening Stones. Braz Dent J (2006) 17(3):237-242.
  14. Moses O, Tal H, Artzi Z, Sperling A, Zohar R, Nemcovsky CE. Scanning electron microspe evaluation of two methods of resharpening periodontal curets: A comparative study. J Periodontology 2003;74:1032-1037.
  15. Murray GH, Lubow RM, Mayhew RB, Summitt JB, Usseglio RJ. The effects of two sharpening methods on the strength of a periodontal scaling instrument. J Periodontology 1984;55(7):410-413.
  16. Marquam BJ. Strategies to Improve Sharpening. Dent. Hyg., July/Aug. 1988.

 

 


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